Aquela garota se sentia deslocada. Ela era diferente. Para alguns até estranha. Era o tipo de menina que dá atenção a coisas pequenas. Ela adorava o cheiro dos livros. Para ela cada livro tinha um perfume diferente. Ela não sabia bem se era o tipo de papel em que o livro era impresso ou se eram as palavras, que conforme o estilo, recheavam cada um como uma bomba de chocolate. Livros novos tinham um cheiro seco. Nem por isso era pior. Mas era oco, um cheiro esperando por resposta. Por leitura. Ela achava que aqueles que haviam sido lidos poucas vezes, por mais que fossem antigos, tinham um cheiro efêmero. Um cheiro curto, um cheiro que não durava. Não permanecia.Os livros antigos, já lidos muitas vezes, eram seus preferidos. Quando pequena gostava mais do cheiro deles do que da história em si. Livros velhos tinham um cheiro doce. Ela folheava as páginas com rapidez, e tirava suas conclusões. Era como cheiro de baunilha. Isso mesmo. Baunilha. Um cheiro doce e leve. Por alguns momentos ela se sentia quase “o boticário da cidade”. Descobrindo fragrâncias e criando perfumes.
Depois de um longo e tortuoso dia, ela esqueceu-se disso. Sentou no banco da varanda, e observou o mar de luzes á sua volta. Estava frio. Mas aconchegante. Ele chegou como quem não quer nada e a abraçou. Disse no ouvido dela que a amava.
- Estou com frio. – ela respondeu.
Ele sem dizer palavra, entrou e pegou um cobertor.
Ela estava em dúvida. Vivera por tanto tempo com coisas certas e decisões sem exceções. Certezas sempre. E por isso essa dúvida a assustava. Por um segundo ela queria afundar a cabeça, os cabelos e pensamentos num travesseiro enorme. Ela precisava pensar, porque não sabia onde estava agora. Sua paixão. Ela a procurava pelos cantos da alma e sempre a encontrava escondida. Tristonha. Abalada. Indecisa.
- Aqui está. – disse ele acomodando a coberta nos ombros da garota. Ele sentou-se junto dela. Só o que ele queria era ficar ali.
- Eu queria ficar assim pra vida toda.
- Assim como? – pediu a menina, confusa.
- Assim... Sentado num banco, na varanda. Com você. Eu sei que não sou assim o tempo todo, mas eu tento. Só o que quero é que você acredite em mim.
Ela olhou pra ele e deu de cara com aqueles grandes olhos amendoados que a fitavam. Notou aquilo que viu quando o conheceu. Aquela faísca de aventura e desejo. E aí; a dúvida passou.
- Eu te amo muito. Me desculpe.
Ela cessou as palavras e as antigas conclusões. Esqueceu-se de tudo e se entregou. Àquela aventura, rodeada de luzes da cidade. Ela lhe sorriu a felicidade em dentes.E ele lhe sorriu o fim da dúvida.
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"In my dreams I can see you
I can tell you, how I feel
In my dreams I can hold you
And it feel so real
I still feel the pain
I still feel your love
And somehow I knew, you could never, never stay."
Anathema - One Last Goodbye





